Carmo Vasconcelos

ROMPENDO AMARRAS

POESIA LIVRE

por

Carmo Vasconcelos

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Max Silbert

Mulher Lendo

 

O QUADRADO
Carmo Vasconcelos

Cai a noite…

Baixa o silêncio
de lúgubres ruídos.
sombras agitam-se em danças espectrais,
duendes e gnomos
congeminam diabruras,
almas penadas
visitam moradas antigas.

Num passe mágico
de mão invisível,
o manto de negrura que me envolve
desdobra-se a meus pés,
pondo a nu
a visão aterradora
do quadrado que me encerra!

Carmo Vasconcelos

O RESGATE
Carmo Vasconcelos

Vieste das cavernas da escuridão,
vela exaurida…
Trazes as marcas
dos morcegos desarvorados,
as cicatrizes
dos vampiros esfomeados,
o corpo exangue,
as mãos em sangue de os enxotar!

Passaste fome,
fome de amor...
Comeste sapos que te mirraram,
silvas e cardos que te arranharam.
Passaste frio,
gelaste a alma,
e numa manta feita de dores te embrulhaste!

Houve batalhas de Luz e Treva,
e os pirilampos, Guerreiros da Luz,
voaram baixo…
Vencendo a Treva,
te resgataram,
te iluminaram,
e tu, vela exaurida, hoje és um facho!

Carmo Vasconcelos

 

O TRÁGICO
Carmo Vasconcelos

Dói-me o seu rosto!
Máscara seca, pele crispada,
riso castrado.
Para ele,
a comunicação é linha cortada,
o contacto… risco de choque.

Toda a palavra lhe soa a falso
e cada gesto é uma traição.
Seus olhos frios,
acusadores,
a esmo imputam seu sofrimento.

Digere a vida em agonia,
sob os seus pés,
cada desnível é um alçapão,
cada degrau,
uma subida para o cadafalso.

A amargura é sua química,
destilando humores amargos.
É o descrente
para quem a fé
é teoria transcendental...
A felicidade,
a rara Pedra Filosofal.

Adulterando a existência,
semeia e colhe
frutos de fel,
envenenando-se neste palco
onde a Tragédia é o seu papel !

Carmo Vasconcelos

 

O ULTIMO GRITO!
Carmo Vasconcelos

Hoje apetece-me gritar!
O tempo já se vai fazendo curto para soltar os meus ecos,
limitado para esvaziar tantos gestos recalcados,
exíguo para extravasar tanto amor,
urgente para toda me entregar.
Não tentem sufocar-me, senhores!
Não mais calarei os meus ardores!
Direi "amo-te" a quem amo, direi "quero-te" a quem quero,
beijarei a boca que me chama,
enlaçarei o corpo que me inflama.
Preguem-me os letreiros que quiserem!
Apelidem-me de tonta, idiota, ridícula, se preferirem,
estou-me nas tintas!
Recuso-me a vestir essa farpela,
não condiz com a genética da minha pele!
Já abortei muitos abraços, embalsamei o corpo,
deixei morrer à fome filhos-beijos,
congelei cios e desejos,
e matei, à nascença, inocentes palavras de amor.
Basta! Mais assassinatos, não!
Pouco me importam os epítetos!
Tenho as costas largas, um peito imenso,
dilatado de tantas emoções contidas.
Não posso protelar tudo para outra encarnação,
a minha alma está em fim de gestação,
placenta a rebentar de nados-mortos.
Sonhos que calei, passos que não dei, amores que não vivi...
Corre-me nas veias um rio de desafectos.
Não me enjeitem os beijos, não me amarrem as mãos,
não me devolvam carícias,
não aceito devoluções!
Deitem no lixo se vos forem de sobra!
Haverá sempre os subalimentados que catarão delícias
nos contentores dos rejeitados.
Não me impeçam de gritar o amor
enquanto a matéria vibre e tenha sangue e tenha voz!
Porque o amanhã pode não passar de hoje,
e ser chegado o tempo de me levar de vós!

Carmo Vasconcelos

 

OFERENDA
Carmo Vasconcelos

Devolvo-te hoje
a frágil oferenda indefinida…
Ínfima a dádiva
à luz da dimensão
do meu anseio de unidade!

Mas se te fores
e o frágil der lugar ao nada…
Vertiginosa,
encarnarei em ti,
criando a unidade reclamada!

Carmo Vasconcelos

 

OH! VELEIDADE!
Carmo Vasconcelos

Invertidos adentro, meus olhos me interrogam:
Afinal, quem és tu, quem julgas ser?...
Tu…amálgama de nervos e de músculos,
cingida a voz do sangue a ínfimos diâmetros,
limitadas as vontades
à obediência escravizante da mente objectiva,
autómato andante ao ritmo das marés,
luzindo à mercê de sóis e luas…

E quando em ti repousa esse intrincado enredo
que agiliza e faz vibrar a tua carne?
E quando o mar se faz segredo,
o sol te foge e a lua te ignora?...
Hibernas… Inerte… Qual degredo
no sono semelhante à morte consentida...
que a outra… te dá medo!

Quem és então nessa hora de pecados genuflexos
em que te abandonas protegida
na certeza dos infalíveis regressos?...
Folha solta, asa à deriva, poeira ao vento?
Ou Fénix renascendo das cinzas,
dessa vigília de fogos fátuos e fumos efémeros
a que chamas vida
e onde, anestesiada, ardes na ilusão de ti mesma?...
Manietada nas macias ligaduras dos lençóis,
muda na mordaça almofadada,
cega no breu da persiana cerrada,
ascendes ao Infinito desse secreto Tudo,
para seres aí…A coisa nenhuma,
a bola do desejo feita espuma,
a invisível essência que te habita, pura,
sem máscaras nem ardis,
sem muletas de inventados álibis.

Dormentes as dores que te foram desferidas,
caladas as invejas feitas feridas,
saltas, brincas, cantas, ris,
sem paredes espelhadas de perfis.
E abandonadas no leito as bagatelas,
não gaguejas as verdades iludidas,
vestidas de frases belas.
“No shocking”, não repugnas nem agradas,
e amas sem pudores e sem tabus
os caros amigos, os vocês… também os tus,
libertas as paixões terrenas cerceadas.

Até que um toque, um bate-porta,
te trazem de volta a esse incompatível despertar
de corpo terreno, alma peregrina.
Regresso obrigatório a um simular de morta
para a volúpia inda latente a ocultar
à multidão de vista torta!
E voltas… Luzir andante, mistificado e sufocante,
sombra de ti na inverdade …
Oh! Mulher-Fogo! Água-Menina!
Oh! Veleidade!

Carmo Vasconcelos

 

PRECONCEITO
Carmo Vasconcelos

Infringiste a Regra
do êxtase rectilíneo das mentes quadradas,
ao provares o fruto proibido
do "discriminado" lado da árvore...

Discriminado, sim!
As árvores sempre me pareceram redondas,
livre a escolha dos frutos,
homo... uni... bi... ou multisexuais...
Todos
obra da mesma Criação circular.

Não é a estância terrena um planeta esférico?
Não estão as almas,
primordial e amorosamente,
ligadas entre si
pela generosa e imparcial essência Divina?

Por que não encurvar então o quadrado
das mentes supostamente rectas,
infringir a Regra,
e provar o fruto proibido
do discriminado lado da árvore
para atingir o êxtase?...

Carmo Vasconcelos

 

Livro de Visitas

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