Carmo Vasconcelos

ROMPENDO AMARRAS

POESIA LIVRE

por

Carmo Vasconcelos

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Charles-James-Lewis

NA ESQUINA DO TEMPO
Carmo Vasconcelos


Na esquina do tempo neva…

Estendo toldos carmesim
na palidez da minha angústia,
atiço fogos
nas cinzas mortas dos meus olhos,
penduro nos lábios
trapos de sorrisos,
e caminho,
caminho para ti!

Five o’clock tea?…

Na esquina do tempo neva…
Extinguiram-se lumes,
a chaleira dorme,
só água,
água fria e folhas secas
o chá das Índias que me havias prometido!

Carmo Vasconcelos

NÃO HÁ DILEMA…
Carmo Vasconcelos

Quando me sinto num labirinto
ou encruzilhada
e a minha alma aniquilada
é folha morta…

Quando me vejo
como pintura inacabada
e o meu desejo chega à loucura
e me desfaço…

Quando a procura
é uma saída que não tem porta
e o meu abraço
vai para o espaço…

Ainda assim,
não é o fim, não há dilema,
pois sempre encontro dentro de mim
“aquele” poema!

Carmo Vasconcelos

 

NEBLINAS
Carmo Vasconcelos

Sacode a neblina tenebrosa
que tolda o teu pensamento,
varre a nuvem pardacenta
que encobre o céu do teu sorriso,
tranca portas e janelas,
veda as frinchas,
não consintas que te habitem!

Busca as pedras, e encontra o gesto
que há de gerar a faísca luminosa
que te devolverá a claridade...
Não receies,
não se queimarão na luz
tuas memórias!

Desnuda-te de medos e de raivas
e banha-te na chuva expurgadora
das tuas lágrimas.
Dissiparás as névoas
e lavar-te-ás do pó da tua angústia.
Não temas!
Não se afogarão na chuva
teus perenes sonhos!

A tua mente, luminosa e lavada,
será então
um prado de verdes orvalhados
e dele emergirá
nova e rubra vida,
como papoila de entre cardos!

Carmo Vasconcelos

 

NO ENLACE DO FOGO
Carmo Vasconcelos

Em breve serei
só cinzas e pó,
que à terra não vou!
Que me leve o mar
ou subam no ar
cinzas do que sou!
Que me lamba o fogo
que me purifique,
que nada aqui fique,
matéria impura...
No sal ou na altura,
lá me acabarei!

Por cá deixarei
na aragem que flui,
espectro do que fui.
Invisíveis dedos
duma alma errante,
desejos, segredos…
De gotas-juízo
somente o bastante!
Laivos de ternura,
paixões e degredos,
pingos de loucura
nas noites sem siso…

Dos versos que aliso,
deixarei as letras,
que pra uns são tretas,
tempo diluído
perdido na senda…
Pra alguns, serão prenda,
legado querido,
bordado de renda!

No enlace do fogo,
breve saberei
tudo o que não sei
do incógnito logo!

Carmo Vasconcelos

 

O BANQUETE
 

Segundo o mito de Platão, no principio todos os seres eram andróginos, com uma metade feminina e outra masculina.
Por castigo de ofensas aos deuses foram divididos ao meio.
Trata-se, na verdade, de uma fábula, um mito encantador, destinado a revelar um ponto muito profundo.
Sob essa perspectiva, o amor é literalmente a busca da outra metade.
Essa fábula tem implicações muito abrangentes em termos da metafísica e da ética de Platão.
É um outro modo de afirmar que não somos seres completos, e que os movimentos do amor são uma busca de complemento.

(In "O Banquete", de Platão)

 

O BANQUETE!
Carmo Vasconcelos


Vestiste o meu roupão,
calçaste os meus chinelos,
deles aspiraste o meu afecto.
Deixaste neles teu cheiro e teus cabelos,
e ainda ecoa no meu tecto
o teu bater de coração.
Bebeste do meu copo,
soubeste os meus segredos,
desvendei-te os meus enredos.
Fizemos amor de vinho e pão,
de carne nos lambuzámos,
e dentro de mim verteste a tua taça...
Havia acordes dum dengoso minuete
no fausto desse banquete
sem sombra de ameaça.
Quantos risos, quanta festa,
antes e depois da sesta!...

Caminhámos abraçados
frente ao mar,
colocada a preceito
a caravela do sonho
que pregaste no meu peito.
Mão na mão,
éramos do próprio Eros a encarnação!
E nenhum de nós queria saber
se tudo isso se chamava amar.
Para quê catalogar?...
Bastava-nos estar perto
e o resto do mundo era um deserto.
Quantos ais e madrigais...
O sangue se incendiava
e como brasas que ateiam com a aragem,
ardíamos juntos nessa viagem
de êxtases conjugais.

Mas tudo não passou duma miragem!
Morreram-me os olhos numa visão fatal
ao ler os editais
dos teus súbitos esponsais
numa igreja virtual.

Carmo Vasconcelos

 

O DEMO DA CARNE
Carmo Vasconcelos

Puros, estavam dois anjos
de pedra, na sacristia,
candidamente lembrando
o paraíso perdido.

Uma doce melodia
composta de harpas e banjos
ouviam… embebedando
de espírito os seus sentidos.

Mas em satânica dança
se aproxima o inimigo
concupiscente e atrevido
que há-de virar todo o jogo…

E quebrando a calmaria,
o demo da carne avança
montado nos torvelinhos
duma onda de perigo.

Com os seus braços de fogo
semeia carvões em brasa,
e rindo em feros rugidos
ateia um fogo que arrasa!

E a partir desse dia,
a capa dura e fria
dos inocentes anjinhos
não é de pedra jamais…

Porque de carne vestidos
viraram simples mortais!

Carmo Vasconcelos

 

O MURO
Carmo Vasconcelos

Entre mim e ti…

O muro invisível,
o abismo que medeia os paralelos,
a incógnita do enigma!

Entre mim e ti…

O meridiano intransponível,
a equação irresolúvel,
o absurdo do “quase” !

Entre mim e ti…

Também a labareda que incendeia
e nos projecta a uma simbiose lúbrica
sem amanhã!

Carmo Vasconcelos

 

Livro de Visitas

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