Carmo Vasconcelos

ROMPENDO AMARRAS

POESIA LIVRE

por

Carmo Vasconcelos

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Francisco Masriera y Manovens

Jovem Descansando

HOJE, AMOR...
Carmo Vasconcelos

Hoje, Amor,
estou sedenta de magia!

Queria ter o dom dos encantadores de serpentes
e apenas com a minha voz
poder trazer até mim teus olhos vidrados nos meus!

Desejava possuir a lâmpada mágica de Aladino
a quem pediria um presente único para ti...
Belezas que nenhuns olhos viram,
maravilhas que ser algum conhece,
emoções que alguém jamais sentiu!

Palavras nunca ditas,
versos por inventar,
melodias tão sublimes
que te transportassem às esferas celestiais
dando-te a ilusão de estares habitando as estrelas!

Já te disse, Amor,
hoje estou sedenta de magia!

Queria montar contigo um tapete voador,
sobrevoar
mares translúcidos cor de esmeralda,
desertos quentes de seda e oiro,
jardins suspensos de raios de sol.
Tocar
luas prateadas de pele acetinada,
sóis de rubi incandescentes,
gotas diáfanas de chuva
ocultas no útero prenhe das nuvens!

Queria beber contigo
dos néctares dos deuses,
partilhar as suas orgias transcendentais
e, embriagados,
rirmos adoidados do teu rosto estupefacto,
injectado de todas as cores do arco-íris!

Por fim,
banhados de absoluto,
atingiríamos os Pólos de brancuras eternas,
vestiríamos as túnicas nupciais de gelo e sal,
e legaríamos ao mundo
a escultura simbólica do amor imortal!

Carmo Vasconcelos

INCONSTÂNCIA
Carmo Vasconcelos

Tudo em mim
paira suspenso,
indefinido.
Sou a teia de fios diáfanos,
inconsistentes,
nada me enleia!

Odeio o fixo,
o programado,
sou a mudança,
a inconstância,
o improviso.
Sou a gaivota que voa solta!

Preciso espaço
pra espairecer o meu cansaço.
E se o amor busco e atraio,
que seja um raio que caia ao lado,
que me estremeça,
que me enlouqueça,
sem me atingir!

Sou o múltiplo
que não contém a unidade.
Só peço abraços,
não quero laços.
Busco emoções,
não quero grilhões!

Sou o sonho
que não consente a realidade.
Sou um faminto que engole anseios,
mas... sem rodeios,
prefiro a fome
à saciedade!

Carmo Vasconcelos

 

INDIFERENÇA
Carmo Vasconcelos

Já não é tarde nem cedo…

É o tempo exíguo de um suspiro,
da inquietude de um momento.
Já não me fere
a voz cruel do inacessível,
nem o eco mudo das paixões.

É o tempo sem medida da memória que se apaga…

Na sábia e Divina metamorfose do ser,
retomo o silêncio perdido,
visto a indiferença pelo absurdo,
e caminho,
caminho para o esquecimento!

Carmo Vasconcelos

 

INTERMEZZO
Carmo Vasconcelos


Fica comigo, amor!
Dar-te-ei risos
de criança com brinquedos,
pintarei estrelas
na ponta dos meus dedos,
e sóis
no céu da boca do meu beijo.
Serão somente tuas
minhas luas de desejo,
e só para ti
meus poemas que antevejo
plenos de volúpia e de carinho.

Amor, tu estás no meu caminho!

Fica comigo, amor!
Serei teu melhor fado em ré maior,
a prosa cativante que te envolve,
o mar em que mergulhas
com langor;
a onda que te leva e te devolve
ao meu corpo de evasão.
Não tenho para ti
as amarras da prisão
nem o jugo castrador da possessão
que leva ao desatino...

Amor, tu estás no meu destino!

Quero-te, sim!
Como te quero...
Mas voando solto como a ave,
o timoneiro que conduz
em liberdade a sua nave,
de olhos postos no sonho e na cruz.

Fica comigo, amor!
Relembremos a divina sinfonia
que no céu foi escrita um dia
para nós...
Celebremos a vida que nos resta
em amor e poesia a uma só voz!
Retomemos as harpas e os banjos
do tempo em que louvávamos,
em sintonia com os anjos,
a celeste guarida.

Amor, tu estás comigo nesta vida!

Fica comigo, amor!
Esta é a prece que a Deus rezo,
em intermezzo...
Continuemos a peça interrompida,
corpo a corpo, mão na mão...
E de enlevo as almas rasas,
voltaremos a ter asas,
nem precisamos coração!

Carmo Vasconcelos

 

INTROSPECÇÃO
Carmo Vasconcelos



Preciso ficar a sós comigo,
tocar meus seios, olhar o meu umbigo,
sentir o pulsar do coração…
Atenta, no silêncio escutar a mestria dos órgãos,
e nas veias, o sangue a alimentar
o ritmo da vida…
Preciso medir meu campo de visão,
percepcionar a mente, o raciocínio, a sensação,
a transcendência dum orgasmo a me tomar…
Mirar no gesto, a tela que pinta a minha mão
quando em labor ou em acto de paixão,
ou quando, simplesmente, posta a orar…
Sentir o peso de meus pés a interligar-me
à terra-mãe, ao pó, princípio e fim.

Em tudo o que vibra e canta ao meu ouvido,
em tudo o que estremece o meu sentido,
entendo o poder da Criação!
Ânima, sopro divino, vibração e harmonia,
o clarim de Deus, soando em mim em sincronia!
Na introspecção, percebo o milagre e a beleza
do ser que se irmana ao pulsar da Natureza,
e que a segue, a par, nas estações que se sucedem…
Os primaveris e verdes anos,
a rubra e sensual pujança do verão,
nos ocres outonais… a rendição;
e na estação final… o branco, a invernia
da planta envelhecida, estéril de cor, que em letargia
prepara a gravidez de nova flor.

Preciso olhar o espelho sem gesto que esmoreça,
sem sensação de perda ou retrocesso,
e lúcida, serena, apelar ao siso,
encontrar o meu suporte,
vislumbrando dessa imagem o reverso…
Do outro lado do espelho há vida, há recomeço,
em prosa e verso, em choro e riso…
Há outro despertar pra um mundo ainda imerso
em novas cores, novos rumos, novos céus;
e em mim… de novo há-de soar o clarim de Deus!
Soprando ao meu ouvido um Universo
onde não há morte, onde nada é perdido,
tudo é mutação,
e vida renovada em transição!

Carmo Vasconcelos

 

MARÉ NEGRA
Carmo Vasconcelos


Fustiga-me o rosto
súbita nortada,
derruba-me a vaga
de negra maré,
atingem-me raios
granizo, trovões...
Por pouco, sou nada!

Recorro assustada
às asas da fé,
e de alma alumbrada,
navego sem medo
à proa e à ré...
Enfrento a nortada
e rumo de pé!

Carmo Vasconcelos

 

MULHER
Carmo Vasconcelos

Mãos como conchas
onde moram pérolas de afagos...

Seios como fontes
que derramam o néctar da vida...

Olho ciclópico no ventre
a prometer maternidades…

Mulher,
és a seiva do mundo!

Carmo Vasconcelos

 

Livro de Visitas

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