Carmo Vasconcelos

ROMPENDO AMARRAS

POESIA LIVRE

por

Carmo Vasconcelos

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Adolphe Alexandre Lesrel

Cativa
 

ESFÉRICO
Carmo Vasconcelos


Redondo é o ventre
que gera a vida.
Redondo é o seio
que amamenta a cria.
Redonda é a Lua
da imaginação.
Redondo é o Sol
que germina o grão.
Redondo é o Mundo
onde tudo vibra.
Redondos os sonhos,
bolas de sabão…

Redonda a existência
de ciclos sem fim.
Redondo o abraço
que te cola a mim.
Redondo o falo
da fecundidade.
Redondos teus lábios
de sensualidade.
Redondo teu corpo
de apelos carnais.
Redondas as formas
que eu amo demais!

Carmo Vasconcelos

ESPERA-ME…
Carmo Vasconcelos

Sei que me esperas…

Vestida de branco,
pele acetinada,
virgem,
morrendo no vazio da inutilidade.

Anónima e solitária,
imploras
paixão, lágrimas,
sonhos, raivas, decepções,
ou mesmo
uma simples estória de ninar.

Suportarás seja o que for
menos esse nada
que te reduz à ínfima qualidade
de matéria fria e muda.

Espera-me…

Uma noite chegarei
para roubar-te a virgindade
e salvar-te
do estupidificado anonimato.

Coração nas mãos,
debruçar-me-ei sobre ti
para tingir de azul, negro ou carmim,
esse branco injusto e cruel
de Imaculada Folha de Papel !

Carmo Vasconcelos

 

FANTASIA
Carmo Vasconcelos


Invento o teu rosto...
Olhos fugidios dissimulando o desejo,
lábios sensuais me prometendo o beijo...
Das pérolas que espreitam da tua boca em avidez,
faço colares com que enfeito
tua ansiada nudez.

Nossas íris maliciosas, num jogo de toca e foge,
já brincam libidinosas.
E as sobrancelhas, em servil conjugação,
arqueiam-se langorosas
para que saltemos ao eixo,
pés desligados do chão,
alçados para o orgasmo em nossa imaginação.

Invento o teu corpo...
Deserto ardente ou praia encoberta,
matagal a desbravar ou suculenta vinha…
E semeio nele as carícias que farei à descoberta.

Sonho-te pronto,
sussurrando ao meu ouvido a tua espera igual à minha,
mãos-borboletas ensaiando voos nupciais
que levarão ao céu do nosso encontro.
E ascendo, verde trepadeira renascida,
à janela-água do teu leito
para saciar a minha sede no teu peito.

Invento o nosso amor...
Uma tela preciosa e colorida,
o êxtase paradisíaco na paixão dada e recebida…

Levo nos cabelos malmequeres
que desfolhas enredado em mil meneios
sobre os picos atrevidos dos meus seios.
Mal me quer, Bem me quer, Mal me quer,
Muito, Pouco, Nada…

Apaixonada, despudorada,
falseio a matemática da flor, sequiosa a te beber.
Bem me quer, Bem me quer, Bem me quer!
Muito, Muito, Muito!

Desejo-te terra e ar, fogo e sol a aquecer
a pétala única
que sobrou da desfolhada
deste inventado amor a florescer!

Carmo Vasconcelos

 

"FAZER AMOR"
Carmo Vasconcelos

"Fazer Amor"...
Pura expressão tecnicista!
Como se o Amor se fizesse...
Como se das mãos brotasse...
Como se do chão nascesse...
Como se houvesse o artista
que tal obra projectasse...

Como se o Amor fosse táctil,
mecânico, elaborado,
artefacto, peça fácil,
mero produto acabado...
Matéria reconstruída,
cria gerada e nascida...

"Fazer Amor"...
Se alguém fazê-lo soubesse,
qual artífice faz a obra,
qual actor inventa o gesto...
De tal modo abundaria,
tornado tanto e de resto,
que ninguém o buscaria
em ânsias, por ser de sobra.

Por não existir tal dom,
o Amor é raro, precioso,
feito mistério e encanto...
Génio bom e luminoso
que das harpas tem o som
e das sereias o canto.

O Amor…
Pode até inventar-se,
pode vender-se, comprar-se,
pode adiar-se, esquecer-se,
como uma Graça esperar-se,
sofregamente querer-se...

Mas jamais pode "fazer-se" !

Carmo Vasconcelos

 

FEITIÇO DE ANO NOVO
Carmo Vasconcelos

A noite estava fria!
Fria, mas acariciante, porque tu estavas nela!
Meu corpo ardia à tua sombra,
os vidros escorriam,
e eu humedecia, na ânsia de ti!
Falavas de livros, de poetas e poemas...
As tuas palavras soavam-me a Listz,
e eu dançava à tua volta.
Quieta, escutando,
eu era uma criança sentada nos teus joelhos,
e neles percorria o mundo!

O jantar foi tradicional. O vinho, quente e especial.
De entre as guloseimas, tu! A melhor iguaria!
O relógio, tranquilo, cadenciava o tempo, inalterável.
Quando soaram as doze badaladas,
houve fogos de artifício dentro de mim
e fogo-preso no teu beijo!
Só eu desordenada na ordem natural das coisas...
Era o feitiço de um Novo Ano
que nascia perante nós!

Apagámos as velas e a lareira,
deitei-me no teu abraço,
e os indícios de um outro fogo começaram a crepitar.
Eu disse: “É a vida que nos conduz…”
E o teu silêncio consentiu a afirmativa.
Reféns dessa constatação,
invadiram-nos as labaredas inevitáveis,
e já madrugada, mergulhámos na paz dos rendidos!

Carmo Vasconcelos

 

FINALMENTE, AS LÁGRIMAS!
Carmo Vasconcelos

Finalmente, as lágrimas!
Pérolas translúcidas rolaram,
para lavar, sacudir, acordar,
a mente hipnotizada, a razão turvada,
o raciocício embotado, o coração deslumbrado.
Fustigantes,
invadiram portas e janelas da lógica trancada,
para despertarem a clarividência soterrada.
Por entre os dedos alagados,
escorreram afagos desfeitos,
carícias afogadas, gestos d’amor naufragados.
Lágrimas embruxadas, feitas bolas-de-cristal,
trouxeram-me a visão dos meus loucos devaneios.
Impiedosas,
feriram-me os olhos com as minhas utópicas fantasias.
Lá estava eu...
Desesperadamente enamorada,
querendo tingir de azul os cinzentos inalteráveis,
colando asas a um deus que jamais podia voar,
soprando vida e cor numa tela predestinadamente indefinida,
forçando ao concreto uma pintura abstracta...
Obviamente inútil!
Fechei os olhos para não ver mais!
Mas as lágrimas, bolas-de-cristal embruxadas,
sarcásticas na sua transparência,
violaram-me as retinas.
Lá estava eu...
Amante, tango e fado,
esperando aquele dia que não aconteceu...
Feliz! Inquieta! Ansiosa!
Desdobrei linhos, fiz a cama, pus a mesa,
acendi velas...
Ensaei rendas e cetins, nua e impura!
Enchi as taças da certeza.
De ingenuidade me embriaguei,
obviamente cega!
Hoje, as lágrimas...
Finalmente, as lágrimas!

Carmo Vasconcelos

 

HERÓICAS MEMÓRIAS
Carmo Vasconcelos

Densa folhagem de memórias antigas
pende sobre o meu tronco endurecido.
Por frágeis e descoloridas,
se vão esvaindo as folhas novas,
na debilidade da importância transitória...
Enquanto as ancestrais,
regadas de significado,
veios plenos da clorofila madre,
permanecem firmes,
amalgamadas no pez das paixões primeiras.
São as corajosas resistentes,
a impedirem o trepar da folharia efémera,
verde de fútil modernidade.
São as tenazes sobreviventes,
bravamente à defesa das intrusas,
pretensas sugadoras
da perenidade da seiva primordial.
São as heróicas memórias
que, comigo, morrerão de pé!

Carmo Vasconcelos

 

Livro de Visitas

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